quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Barquinho - Parte 3: A Volta

A volta

Foi ali que teve uma brilhante revelação. Amarrou seu barco na primeira cidadezinha qualquer do litoral. Vendeu seu barco por 150 reais. Comprou uma passagem só de ida à cidade de origem. Chegando lá, comprou um celular. Ligou para um antigo amigo, que não via há anos. Convenceu o moço a visitá-lo. Subiu sete lances de escada do antigo apartamento, que, por sorte, não havia vendido. Tomou banho e trocou a roupa suja e fedorenta. Desceu os sete lances de escada e quase beijou o chão. 

Saiu pela rua e começou a abraçar desconhecidos, que saíam do abraço descontentes e continuavam os respectivos caminhos. Parou na primeira padaria que viu e pediu um emprego. Queriam referências, ele disse que nunca havia trabalhado em um lugar daqueles. Mesmo assim, contrataram ele como ajudante de padeiro. Continuou a andar, ajudou uma velhinha a atravessar a rua, deu algumas moedas para um artista de rua. 

Em uma loja de eletrodomésticos, viu que passava novela nas televisões expostas à venda. Ficou encantado com a quantidade de cores, quase não lembrava que havia outra cor que não fosse o azul. Levou ao apartamento, pagou em sete prestações. Contratou o serviço de internet, atualizou o Facebook, checou os e-mails, fez um copo de café. 

E se sentiu em bem. Ah, como era bom voltar para casa! 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Barquinho - Parte 2: A Viagem

A viagem

Poderia ter dormido dentro da cabine, mas decidiu que seguiria o plano e dormiria lá fora. Acordou com os raios de sol nos olhos. E a pele vermelha, queimada. Olhou para o relógio e viu que era mais tarde do que imaginava. Olhou para todos os lados, onde poderia encontrar um café? Nada, obviamente. Mas era apenas o primeiro dia, se acostumaria aos poucos. Logo anoiteceu e ele caiu no sono após contar a quadragésima estrela. 

No outro dia, vitória! Pescou, devolveu o peixe, almoçou em uma cidadezinha qualquer do litoral (não se importava em não saber o nome), descansou por duas horas (desta vez na cabine), colocou o motor para funcionar e dormiu mais uma vez após contar a quadragésima estrela. 

No terceiro dia: pescou, devolveu o peixe, almoçou em uma cidadezinha qualquer do litoral, descansou por duas horas,  pilotou e dormiu após contar a quadragésima estrela. 

Na segunda semana, pescou, devolveu o peixe, almoçou em uma cidadezinha, descansou por duas horas, navegou por mais três, viu o sol se pôr e dormiu após cantar uma canção que havia aprendido em um livro sobre piratas e contar a quadragésima estrela. 


Na terceira semana: pescou um peixe grande, quase não conseguiu devolvê-lo ao mar de tão bonito que era. Se conseguisse lenha na cidadezinha, depois do almoço, será que conseguiria fazer uma fogueira e assar o peixe sem que o barco pegasse fogo? Melhor não arriscar. Descansou por duas horas e pensou no quanto ele sentia um pouco de saudade do barulho dos carros. Dormiu após contar a quadragésima estrela. 

Na quarta semana, obviamente, faria um mês de liberdade. Como sempre, a pescaria rendeu, mas devolveu os peixes. Almoçou em um restaurante melhor, para comemorar. Descansou por três horas, porque merecia. Acordou um pouco entediado. Ver apenas água já estava cansando o aventureiro. Sentiu saudades do cachorro. Dormiu após contar a trigésima nona estrela. 

Um mês e dez dias. Pescou, devolveu o peixe, ficou entediado, almoçou em uma cidadezinha, descansou por duas horas, continuou a ficar entediado, pilotou por três horas e dormiu após contar a quadragésima primeira estrela. 

Dois meses e quinze dias. Pescou, devolveu, almoçou, descansou, pilotou e dormiu após a quadragésima estrela. Em seu sonho, acordava na calçada e ouvia o som reconfortante de carros, pessoas passando, gente apressada.

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CONTINUA! 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Barquinho - Parte 1: Preparativos

Preparativos. 

Estava cansado da vida, de tudo, de todos. Então comprou um barquinho, aprendeu a pilotá-lo e o jogou no mar. Se despediu de todas as pessoas que ainda gostavam dele e isso se resumia ao cachorro. Alma de gente, o único que o entendia. Um dia ele ainda o encontraria, sussurrou baixinho no ouvido do cão. 




Levava nada mais que comida, água e duas mudas de roupa. Isso bastaria, o mar seria o entretenimento dele. Poderia pescar de manhã, almoçar cada dia em uma cidade diferente, descansar à tarde, navegar um pouco depois e dormir contando as estrelas à noite. Tudo se resumia a entrar em um constante e profundo contato com as águas azuis do Atlântico. 


Ficar sem televisão, celular e internet era algo que não conseguia pensar ser possível há cinco anos. E este era um milagre, após se desvencilhar de um item por vez. "Como as pessoas poderiam ficar tão atadas a coisas sem importância para a mente e para a alma? Deveriam seguir o exemplo dele! Ah, seriam tão mais felizes..." E fariam um maior contato com a natureza, do jeito que ele estava prestes a fazer. 


CONTINUA...